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dESIGUALDADE
Imagem: Pixabay

À comunidade leitora,

Esta nota de leitura dialoga, a partir de um horizonte crítico próprio, com a apresentação do artigo intitulado “Intersecção entre a vulnerabilidade informacional e a decolonialidade na Ciência da Informação brasileira”, publicado na RDBCI: Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação, periódico editado pelo Sistema de Bibliotecas da Unicamp. A autoria do artigo é composta por pesquisadores da Universidade Estadual de Londrina (UEL).

Trata-se de um texto que considera a vulnerabilidade social no campo da Ciência da Informação como um eixo potencializador de reflexões sobre questões que envolvem problemáticas do cotidiano. O estudo realizou uma busca exploratória, com abordagem qualitativa e delineamento bibliográfico, que buscou recuperar estudos de mestrado e doutorado no Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES.

A construção nodal que orienta a argumentação do texto introduz o eixo central da discussão, qual seja, o entendimento de que “[…] a informação e o compartilhamento são considerados agentes de valor para mudanças da realidade vulnerável” (Pelicano; Santos; Berti, 2026, p. 3).

Conforme pretendido, os autores definem a Vulnerabilidade Informacional “[…] como a condição de fragilidade e suscetibilidade à perda de autonomia e cidadania de um indivíduo ou grupo social, ocasionada pela carência de informação útil para a trajetória de vida” (p. 3). Assim, diante da variedade de fontes de informação à disposição do público, torna-se importante refletir sobre as condições de acesso que se tornam significativas quando há uma impossibilidade de acessar informações relevantes que permitam às pessoas a compreensão de determinadas situações sociais, além de influenciar diretamente a tomada consciente e segura de decisões que impactam as ações de forma autônoma e coerente frente às dificuldades do cotidiano.

A informação é um elemento crucial que contribui para a manutenção do sistema social coeso. Segundo os autores, não basta apenas que determinada informação seja produzida e consumida pelo público, mas que sua relevância social esteja constituída na significação que garante o sentido dessa informação. Ou seja, a informação é, para além de um dado da realidade, um meio de regulação e equilíbrio homeostático da síntese social.

Nesse ínterim, a sociedade só passa a ser considerada plenamente coesa quando a produção, veiculação, consumo e significação da informação possuem uma utilidade que torne possível a apropriação concreta do conhecimento. Isso é essencial para que o meio social contenha, em sua essência, o controle e o direcionamento de sua constituição histórica, dado que o envolvimento da informação é um fator que incrementa as disposições políticas, culturais e econômicas em determinado período.

Na constituição da hegemonia social, isto é, a consolidação superestrutural de uma classe ou grupo político na sociedade, as unidades de informação são elementos fundamentais para a reprodução social. Contudo, no que tange à possibilidade de constituírem espaços de resistência e emancipação social, também são importantes para que classes não hegemônicas (subalternas) possam construir sua ação contra-hegemônica. Para isso, os autores sugerem que, para a formação de uma nova hegemonia cultural que se coloque com atitude antidominante, “[…] deve considerar e reinterpretar criticamente a cultura das classes subalternas e a cultura dominante, de forma a entender o valor das unidades de informação, que permitem aos sujeitos de todas as classes o acesso às informações socialmente valorizadas” (p. 6).

No entanto, para a superação da hegemonia dominante, conforme os autores, é preciso também reconhecer o aspecto de contestação dos valores do conhecimento tido como universal. Essa ação de contestar as matrizes epistemocêntricas ganha sentido quando os autores elucidam que o ato de decolonização do saber é central na decolonização das bases do poder, pois as relações de colonialidade não chegaram ao fim com os movimentos de independência colonial, nem com o término do colonialismo histórico. Os resíduos da colonialidade permanecem latentes na reprodução social de esquemas culturais e históricos arranjados em uma matriz de poder, saber e ser que historicamente constituiu as bases do eurocentrismo moderno, o qual, na contemporaneidade, permanece perceptível mesmo diante do debate sobre a superação da modernidade pela pós-modernidade. Desse modo, os arquétipos da cultura e da história ocidentais permanecem como pilares sustentados pelos vilipêndios históricos da violência e da dominação colonial, sendo continuamente reproduzidos nas estruturas sociais e influenciando a produção de informações.

Os autores apontam para a potencialidade da intersecção de temas de relevância social ao relacionar a vulnerabilidade informacional com a decolonialidade. No contexto da sociedade capitalista, a existência da vulnerabilidade social constitui uma condição sine qua non para a manutenção da ordem do poder econômico-político, que também tem em sua fundação um passado ancorado na exploração escravagista/colonialista como meio de reprodução do sistema social, uma vez que a lógica do capital é a produção de riqueza a partir da produção da exclusão.

A partir desse direcionamento, parece lógico constatar que o diálogo com o conhecimento decolonial pode fornecer subsídios epistêmicos para a construção e produção de processos sociais, políticos, econômicos e culturais indispensáveis à superação e transformação das condições de desigualdade, promovendo espaços para a efetivação da justiça social, subsidiada em princípios de equidade, inclusão e dignidade humana. Assim, o enfrentamento da narrativa hegemônica (da universalidade) passa pelo reconhecimento e pela emergência de narrativas contra-hegemônicas (das pluriversalidades), que valorizem os artefatos de informação e comunicação constitutivos da diversidade da memória cultural das minorias sociais (quilombolas, caboclos, ribeirinhos, povos originários, camponeses, mulheres, crianças, idosos, LGBTQIAPN+, entre outros).

Jaílson Bonatti [ORCID]

Referência

PELLICANO, Mariana Augusta Martins Santos; SANTOS, Cristina Ribeiro dos; BERTI, Ilemar Christina Lansoni Wey. Intersecção entre a vulnerabilidade informacional e a decolonialidade na Ciência da Informação Brasileira. RDBCI: Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação, Campinas, SP, v. 24, e026016, 2025. DOI: 10.20396/rdbci.v23i00.8678692.

Como citar este post

BONATTI, Jaílson. Em tempos de insensatez e ignorância, a transformação social (sistêmica) exige o combate da desigualdade de acesso à informação [Nota de leitura: Desigualdades]. Blog PPEC, Campinas, v.10, e026005, fev. 2026. ISSN: 2526-9429. Disponível em: https://gesec.sbu.unicamp.br/2026/03/05/jailson-emtempos.  Acesso em: dia mês ano.

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