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Acesso Aberto
Imagem: Pixabay


Caros(as) leitores(as),

Gostaria de destacar o artigo “A publicação latino-americana sobre Ciência Aberta: análise dos periódicos científicos“, publicado na RDBCI: Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação em 2025.

Essa obra representa uma contribuição fundamental para a compreensão de como a produção científica da América Latina se insere no movimento global da Ciência Aberta, oferecendo um mapeamento detalhado dos veículos utilizados pelos pesquisadores da região.

Segundo Vicente e Martínez (2018, p. 7), a Ciência Aberta é “conhecimento transparente e acessível, que é compartilhado e desenvolvido por meio de redes de colaboração.”

Os autores, Camila de Azevedo Gibbon, Patricia da Silva Neubert (ambas vinculadas à UFSC) e Thiago Magela Rodrigues Dias (CEFET-MG), trazem um olhar analítico sobre os periódicos utilizados como veículos da publicação científica latino-americana sobre Ciência Aberta.

A pesquisa analisou também o modelo de acesso bem como a tipologia editorial dos periódicos científicos, comparou essas características de acordo com a base de dados indexadora e o país de origem dos periódicos, e identificou os periódicos científicos que concentram o maior número de publicações latino-americanas sobre o tema.

Os autores trabalharam com um universo de 1.687 artigos científicos, publicados em 858 periódicos com ao menos uma autoria vinculada a instituições latino-americanas, que abordassem a Ciência Aberta e/ou suas facetas, e que estivessem indexados nas bases de dados SciELO Citation Index e/ou Web of Science Core Collection (WoS) (Gibbon; Neubert; Dias, 2025).

Desses 1.687 artigos, 1.402 foram recuperados na WoS, 428, na SciELO, sendo que 143 estavam indexados em ambas as bases. Em relação aos periódicos, dos 858, 726 foram recuperados na WoS e 212 na SciELO, com uma sobreposição de 80 (Gibbon; Neubert; Dias, 2025).

Para compreender melhor os resultados desta pesquisa, é importante esclarecer quais são os modelos de acesso no contexto de uma publicação científica. O Acesso Aberto Diamante refere-se a periódicos que não cobram taxas de publicação, nem assinaturas de leitura; sua operação é normalmente sustentada por instituições de educação superior (IES), consórcios ou fundos públicos.

O Acesso Aberto Ouro indica revistas que disponibilizam todo o conteúdo gratuitamente ao leitor, mas frequentemente financiam a operação por meio de taxas cobradas aos autores.

Já o modelo híbrido combina assinaturas e artigos pagos em aberto. Entretanto, o modelo comercial/por assinatura mantém barreiras de pagamento para o leitor, com periódicos geridos por editoras que cobram pelo acesso.

Entre as principais descobertas da pesquisa encontra-se a tradição latino-americana em Ciência Aberta. O artigo destaca que a região da América Latina possui uma tradição consolidada na adoção de iniciativas de abertura científica, propiciando o acesso livre às publicações.

Assim sendo, outra descoberta importante da pesquisa é o fato de que, na base SciELO, 89,15% dos periódicos utilizam o modelo Diamante, sendo majoritariamente editados por IES. Esse dado reforça o papel das universidades públicas e dos consórcios regionais na sustentação de um ecossistema de publicação sem barreiras financeiras para autores e leitores (Gibbon; Neubert; Dias, 2025).

Já na Web of Science, 57,58% dos periódicos são geridos por editoras comerciais, com 40,36% adotando o modelo híbrido. Esse perfil indica uma maior exposição da produção latino-americana às dinâmicas comerciais e às práticas de cobrança por artigo quando publicada em periódicos indexados globalmente (Gibbon; Neubert; Dias, 2025).

Os países com maior concentração de periódicos científicos e seus modelos predominantes são: Inglaterra, que lidera com 185 periódicos (21,56%), predominantemente no modelo híbrido; seguida pelos Estados Unidos da América, com 139 títulos (16,20%), também majoritariamente híbridos (Gibbon; Neubert; Dias, 2025, pp. 11-12).

O Brasil destaca-se como principal representante latino-americano com 102 periódicos (11,89%), com predominância do modelo diamante; completam o ranking os Países Baixos (98 periódicos, 11,42%, híbrido), Colômbia (46, 5,36%, diamante) e México (40, 4,66%, diamante). Regionalmente, a Europa responde por 47,2% dos periódicos analisados, com predominância do modelo híbrido (Gibbon; Neubert; Dias, 2025, pp. 11-12).

A título de conclusão, o artigo ressalta que os pesquisadores latino-americanos adaptam suas práticas de publicação conforme o espaço de inserção: comportam‑se de maneira distinta quando publicam em bases regionais ou em bases globais, o que evidencia tensões entre a democratização do conhecimento e as exigências do mercado editorial internacional, dominado por um pequeno grupo de editoras.

Em suma, o estudo convoca à reflexão sobre a soberania científica da região: embora o modelo comercial avance nas bases globais, a presença e a atuação das universidades públicas latino‑americanas sustentam um ecossistema de Ciência Aberta que funciona como exemplo a ser considerado em âmbito internacional.

Lourdes Evangelina Zilberberg Oviedo [ORCID]

Referências

GIBBON, Camila de Azevedo; NEUBERT, Patricia da Silva; DIAS, Thiago Magela Rodrigues. A publicação latino-americana sobre Ciência Aberta: análise dos periódicos científicos. RDBCI: Revista Digital de Biblioteconomia e Ciência da Informação, Campinas, SP, v. 24, e026009, 2025. DOI: 10.20396/rdbci.v24i00.8680844.

VICENTE-SÁEZ, Ruben; MARTÍNEZ-FUENTES, Clara. Open Science now: a systematic literature review for an integrated definition. Journal of Business Research, v. 88, p. 428–436, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.1016/j.jbusres.2017.12.043. Acesso em: 22 fev. 2026.

Como citar este post

OVIEDO, Lourdes Evangelina Zilberggerg. A publicação latino-americana sobre Ciência Aberta: análise dos periódicos científicos [Nota de leitura: Ciência Aberta]. Blog PPEC, Campinas, SP, v. 10, e026009, mar. 2026. ISSN 2526-9429. Disponível em: https://gesec.sbu.unicamp.br/2026/03/05/nota-oviedo. Acesso em: dd mm aaaa.

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